O novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, recebeu ontem da União Europeia (UE) a esperada recusa a sua tentativa de renegociar o acordo de divórcio firmado pela antecessora Theresa May no final do ano passado. Mantidas as condições atuais, que preveem o Brexit para o próximo 31 de outubro, a saída se dará sem acordo.






A personalidade errática e o perfil histriônico de Johnson não permitem saber sua intenção real. Ele voltou a afirmar ontem no Parlamento, em seu primeiro discurso como premiê, que está disposto a romper os laços com a UE no final de outubro sem nenhum documento a regular a relação posterior do Reino Unido com o bloco.





As consequências para a economia seriam dramáticas, de acordo com todas as análises preparadas pelo próprio governo. Reabrir a negociação do acordo não é, contudo, um desejo ao alcance de Johnson.





A UE já se disse disposta a estender novamente a data prevista para a ruptura (já houve duas extensões do prazo inicial, no final de março). O objetivo, porém, não seria reabrir a negociação como quer Johnson, mas apenas preparar o bloco para o Brexit sem acordo, que também tem impacto nos cidadãos e empresas do continente.





Em 31 de outubro, a Comissão Europeia terá uma nova composição, sob o comando da alemã Ursula von der Leyen. Outro adiamento parece aos europeus mais sensato que submeter o novo corpo executivo logo de cara ao trauma do Brexit sem acordo.





No Reino Unido, Boris montou um gabinete repleto de radicais do Brexit, dispostos a tudo para tirar o país da UE sob quaisquer condições. Há uma rebelião dentro do Partido Conservador. Apesar de eleito líder com 57% dos votos dos eleitores habilitados (ou dois terços dos que votaram), Boris está longe de ser unanimidade.





Sua postura inflexível diante do Brexit já levou uma ala de 17 parlamentares conservadores a votar com a oposição dias atrás, em apoio a uma moção para evitar que a sessão parlamentar fosse suspensa às vésperas da data prevista para o Brexit, de modo a impedir a intervenção do Parlamento para evitar a saída sem acordo.





O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, declarou que seu partido se oporá a qualquer medida do novo governo e defendeu novas eleições. Boris também deverá ter dificuldades para contar com os dez votos do Partido Democrático da União (DUP), da Irlanda do Norte, de quem depende para sua maioria parlamentar.





O ponto controverso do acordo continua o mesmo: a solução adotada no acordo para manter aberta a fronteira entre as Irlandas, conhecida como “backstop” (rede de segurança). Ela mantém o Reino Unido por tempo indeterminado dentro de uma união aduaneira com a UE.





Boris e a ala do Brexit radical veem o “backstop” como uma armadilha para manter o país preso à UE e tolher a liberdade para negociar novos acordos comerciais. Para os norte-irlandeses, nos detalhes, ele cria uma separação artificial da Grã-Bretanha – anátema para a causa unionista. Para a Irlanda e a UE, é um recurso essencial para manter aberta a fronteira na ilha irlandesa e preservar a paz na região.





Ao criticar o “backstop” e insistir na renegociação, Boris provoca ainda mais a ira dos deputados norte-irlandeses. Eles temem outra solução aventada durante a negociação: manter apenas a Irlanda do Norte na união aduaneira com a UE. Ficaria aberta a fronteira com a Irlanda, mas seria criada na prática uma fronteira interna com o Reino Unido.





Como é impossível conciliar todas as demandas, a atitude de Boris levantou outra especulação: na verdade, seu objetivo ao insistir no Brexit sem acordo seria forçar novas eleições, para obter um mandato mais sólido. Parte da evidência em favor dessa interpretação foi ele ter trazido o chefe da campanha pelo Brexit no plebiscito de 2016, Dominic Cummings, para um cargo-chave de assessoria.





Não é improvável que o governo Boris não dure até a data do Brexit. Há uma aliança natural entre a rebelião interna de seu próprio partido e a resistência na oposição à saída da UE sem acordo. Na primeira oportunidade em que alguém apresentar um voto de desconfiança, a queda de Boris é o cenário mais provável, seguida de eleições.


*Helio Gurovitz - G1




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