Mundo sem máscara: cada um por si e o vírus contra todos
Por que todos os chineses foram obrigados a usar máscaras quando explodiu o novo coronavírus e em outros países elas foram descartadas como “não recomendadas”, necessárias apenas para profissionais de saúde ou até “inúteis”?
A resposta é tristemente simples: não tem máscara para todo mundo.
A falta de um produto banal, cujo fornecimento foi interrompido quando os chineses precisavam se proteger, provocou uma reação agressiva de Emmanuel Macron ao visitar uma fábrica que mudou a produção para fazer máscaras.
“Nossa prioridade é produzir mais na França e na Europa. Esta crise nos ensina que se impõe uma soberania europeia sobre certos bens, produtos e materiais”, disse o presidente francês.
Com ligeiras modificações, poderia ser um discurso feito por Marine Le Pen. Ou por qualquer dos líderes nacionalistas ascendentes. Ou, ainda, coerente com a antiga linha do regime militar brasileiro.
Setores estratégicos, chamavam-se.
Não só a Europa, como os Estados Unidos, sem falar nos países periféricos, descobriram, em plena crise, que estão desprovidos de um instrumento de sobrevivência.
As máscaras são o produto mais evidente, pela urgência imediata, mas há uma longa lista de outros, indo de princípios ativos para remédios a equipamentos hospitalares e toda a cadeia necessária para sustentá-los.
“Devemos reconstruir nossa soberania nacional e europeia”, proclamou Macron.
A palavra-chave é “nacional”. Como todo o resto do mundo, os membros da União Europeia saíram correndo cada um por si.
São os serviços de saúde nacionais que estão enfrentando a crise e todos os discursos sobre paneuropeísmo esvaziam-se diante de uma emergência dessas proporções.
Não é a primeira vez que Macron, considerado, injustamente, pela esquerda como um mero menino de recados dos mercados pelas reformas agora arquivadas de arejamento da economia francesa, fala grosso.
Logo depois de seus erros iniciais, ao liberar concentrações como a marcha das mulheres de 8 de março e depois o primeiro turno das eleições municipais, ele já havia feito uma análise bem dura.
“Há bens e serviços que estão acima das leis do mercado”, disse.
As quantidades astronômicas de dinheiro injetadas para segurar a quebradeira econômica também mostram que emergência é emergência.
“O Federal Reserve virou o banco central do mundo”, resumiu o site Bloomberg.
Essas transfusões de liquidez em massa feitas pelo banco americano estão segurando, por enquanto, uma corrida ao dólar e as falências em cadeia em escala global.
Mas é o caso das máscaras que mais chama atenção pelo imediatismo material para as pessoas comuns.
A virada – de “desnecessárias” para necessárias, e muito – já foi anunciada pelo “médico mais importante do mundo”, Anthony Fauci, o infectologista que domina a área médica da equipe do governo americano.
À sua maneira diplomática, mas sem margens a dúvida, disse Fauci: “A ideia de conseguir um uso comunitário muito mais amplo, fora do ambiente dos serviços de saúde, está sendo discutida muito ativamente pela força-tarefa”.
*Veja
