Não é piada: o maior vencedor das duas noites de debate entre vinte dos pré-candidatos democratas em Detroit, nos Estados Unidos, foi o republicano Donald Trump. A candidatura do atual presidente sai fortalecida do embate, que revelou um racha aparentemente insolúvel na oposição.






“A pessoa que está mais aproveitando este debate agora é Donald Trump, enquanto lançamos democratas um contra os outros”, disse o senador Cory Booker logo em sua primeira intervenção na noite de ontem. Outros debatedores, como o ex-vice-presidente Joe Biden ou o empresário Andrew Yang, repetiram o mesmo ponto.





Enquanto o partido se digladia numa luta fratricida entre, por assim dizer, "progressistas" e "moderados", os republicanos impuseram sua agenda na maior parte dos tópicos debatidos nas duas noites: saúde, imigração, criminalidade e política externa. Colherão, para a campanha, diversos trechos de vídeo em que os próprios democratas atacam quem quer que venha a ser escolhido ao longo das primárias no ano que vem.





Nenhum ponto demonstra de modo mais eloquente a divisão interna no partido quanto o tema mais debatido nas duas noites e aquele que mais inquieta os eleitores: a política para a saúde. A ala progressista, representada pelos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren impôs a discussão sobre a criação de um serviço de saúde universal gratuito, financiado pelo Estado, que acabaria com planos e seguros de saúde.





Aderiram à ideia as senadoras Kamala Harris (embora seu plano planeje uma transição em dez anos) e Kirsten Gillibrand, o prefeito Bill de Blasio, Booker e candidatos menos expressivos, como a escritora Marianne Williamson. A saúde universal gratuita, com todas as diferenças que cada um propõe, virou a bandeira que identifica os progressistas que planejam a ruptura no statu quo.





Do outro lado, moderados como Biden, o prefeito Pete Buttigieg, a senadora Amy Klobluchar, o senador Michael Bennet ou os ex-deputados John Delaney e Beto O’Rourke apontam as dificuldades práticas para financiar o novo modelo. Destacam o desejo de milhões de americanos em manter seus planos de saúde e defendem, também com variantes, a ampliação da reforma do governo Obama por meio da criação de um seguro-saúde estatal, que qualquer um poderia contratar. Haveria, em consequência, maior pressão sobre as seguradoras.





O racha se estende a outra questão que mobiliza os democratas: a imigração. A pergunta-chave a dividir progressistas e moderados nesse caso é como a lei deve tratar quem cruza a fronteira ilegalmente. Hoje é crime, pretexto usado pelo governo Trump para prender e separar famílias que chegam da América Central. Progressistas querem acabar com essa lei. Moderados defendem que o tratamento aos imigrantes ilegais deve ser humano, mas eles ainda devem responder na Justiça.





Outro tema que inflama a discussão são as políticas contra a criminalidade. Booker repetiu as acusações contra Biden que vinha fazendo nos últimos dias, pelo apoio a leis duras, cujas principais vítimas são negros e pobres. Foi ontem o principal “sparring” de Biden, papel que projetou Harris nas pesquisas depois dos debates de junho, quando ela levantou a resistência dele a leis de trasporte concebidas para promover a integração racial nas escolas. Booker e Harris são negros.





Sanders e Warren, estrelas da ala progressista, se saíram bem na primeira noite, graças a um pacto temporário de não-agressão entre ambos. Harris decepcionou, na comparação com o desempenho no primeiro debate. Nenhum dos moderados que tentam se contrapor ao discurso “revolucionário” dos progressistas se sobressaiu. Embora Klobuchar, Bennet, Delaney ou Buttigieg tenham tido bons momentos, esse espaço é de Biden, líder isolado nas pesquisas.





Biden estava menos hesitante nas respostas e resistiu ontem aos ataques melhor que no primeiro debate. Não sem feridas. Sua estratégia é atrair um leque amplo de eleitores e reconquistar a população branca do Meio Oeste, que votou em Barack Obama em 2012, mas preferiu Trump em 2016. O risco é não ser visto como radical o bastante no embate contra Sanders, Warren ou Harris, alijando negros, hispânicos e outras minorias essenciais à vitória democrata.





O desafio de quem quer que vença será unir o partido depois de primárias que prometem deixá-lo conflagrado. Biden ainda nem enfrentou Sanders ou Warren. Os debates previstos para setembro, com número reduzido de pré-candidatos, poderão trazer enfim o primeiro enfrentamento entre aqueles que ocupam o alto das pesquisas. Se mantiverem ou ampliarem a divisão interna, Trump continuará a ser o maior beneficiado.


*Helio Gurovitz - G1




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